mercredi 22 décembre 2010

Ao pé do Vercors

Arcos moldados em rocha bruta,
sons de uma cidade já acordada.
Rochedos em picos e algumas pontas.
Nas ruas: bicicletas, carros, velhos, barulhos e botas,
(…) passavam.


Numa pressa danada,
fios tensos a angular um horizonte acima da linha do pôr do sol.

De tarde, um cantar dos corvos, alegremente,
na maioria das vezes escolhem o ângulo reto do perfil de um prédio…
Só pra cantar e serem vistos, todo preto, tão preto, tão vivo.

Tão preto, tão cinza, tão na minha vista,
e, sei que nunca vi um corvo em chão de pista alguma.

Seria um pista?
(…)
Prefiro acreditar que sim.


No fundo cromaqui do céu, lá de cima,
ao espassar das nuvens nem tão densas assim,
ou na vagaresa das montanhas,
os pássaros pretos sabem que compõem uma vista,
assim toda impressionista.


por Tatiares

lundi 22 novembre 2010

A voix mienne - Anny AYRAUD

A voix mienne
Je sais dire ma terre
J’y pénètre à pas tendres
Je m’y enfonce quand j’erre

Dans mes yeux refleurissent ses jardins
Et tous les fruits de l’Orient
Dans ma bouche s’alanguissent ses jasmins
Et toutes les saveurs de l’Antan

Ma terre est mienne
Je suis née de ses caresses
Je m’y abreuve
J’y reviens sans cesse

Dans ses oueds endormis après l’orage
Dans ses sables de soleil allumés
Dans ses forêts de fleurs sauvages
Sur les minarets de ses mosquées

Pour moi seule
Je l’ai enfouie
Au plus secret
De mes regrets

Sur la pierre parfumée de nos cimetières
Dans le pas cadencé de ses porteuses d’eau
Dans les ghaïtas et flûtes de bergers en écho
Dans les vapeurs d’épices de ses tajines berbères

mercredi 17 novembre 2010

Se ter com o fogo

Fazia frio, mas era mais um frio por dentro que assolava um pensamento numa manhã cinzenta, inclusive por opção. Além da noite, de uma noite vazia, se via como quem não sabe de fato se o fato era realmente importante, só tinha certeza do que, de pensar, tanto sentia. Questões, se punha questões… e se impunha de responder rápido, assim era mais fiel ao ímpeto, ao caso. Inúmeras reflexões em loop, meras querências caprichosas, querer demais dá nisso. Dá ânsia, nos dois sentidos. Naquela noite acordara mais de uma vez, com suor na nuca, porque tinha ânsia também nos sonhos, que de metafísicos não têm nada. Sonhos de um cauchemar dentro d’outro, como imagens em calendoscópios nada coloridos, tudo distorcido, torto e comprimido. De um desconforto crônico, esvaía a mágoa. Há quem acredite que se dissipa o desconforto com o deixar passar de um tempo. Quem sabe ? Pode até ser que se cure outros males assim, nesse indo inerente à vida, e que a gente insiste em pensar sobre. Teimosia é coisa séria, causa nó no umbigo igual o medo. Pontos de inflexão à beira de… outra coisa, nada parecida. Havia uma aflição sobre a visão do futuro com sensação de uma corda puída toda bamba. Se encontrava em situações meta-estáveis demais e, duvidava que a instabilidade se dê só no imaginário, não ! Ela existe nos diminutos espaços entre os dedos de qualquer mão; e quando alguém acha que tem algum poder nas mãos, já não tem mais é nada. Das mãos às vezes juntas, se faz uma oferta, como quem semeia o chão de uma terra árida. Queria-se como quem não quer a nada e a tudo, bem misturado e tudo junto. Isso é bem latino, não ? ‘E temperamento latino é fogo’ e, se se falta o fogo a casa cai ! É necessário se ter com o fogo ao menos uma vez por dia pra não sentir nenhum tipo de frio nem deixar a vida mesquinha.

Por Tatiares

jeudi 4 novembre 2010

De l’haut d’une montagne

De l’haut d’une montagne, aujourd'hui j'ai essayé de me tuer.

Est-ce que comme un rêve avec un saut dans l’abîme, je suis parti.

Et comme un oiseau blessé, imperturbablement, j’ai rien fait.

Toutefois, au fond du précipice colossal en prévoyant mille baises,

Vous m’attendiez à sourire.

Que soit celle-ci ma destination - une douce fatalité.

Jusqu'à quand la mort, je cherche !

La mort, elle vous habille et se dévient seule pour me recevoir.


por gguimalem & Tatiares

mercredi 3 novembre 2010

Escultor en bois

Stephan Balkenhol é um escultor alemão nacido em Fritzlar em 1957, professor de escultura na Academia de belas Artes de Karlsruhe desde 1992, um dos nomes mais expressivos da escultura contemporânea; sua especialidade, esculpir em madeira! Neste fim de semana conheci de perto sua bela obra, e aqui apresento algumas fotos que encontrei na internet.















Uma das coisas que me impressionou bastante além da expressão em altos e baixos relevos, foi a quantidade de obras que ele fez neste ano de 2010, as quais não são mostradas aqui pelo fato de ter sido proibido tirar foto.

Aqui um pouco mais sobre o escultor no site da exposição temporária no Museu de Grenoble: http://www.museedegrenoble.fr/balkenhol.htm

por Tatiares

jeudi 28 octobre 2010

nano espaço


Dentro do espaço imenso e virtual


do micro armazenamento imaterial e real


guarda-se coisinhas e truques,


átomos multi-sabores e nanos-chicletes,


mili-mares de litros, bites e hidrogênio...


Tudo na sacola do dimesionável mundo novo,


sem precisão da escala de tempo,


com endereço e selo único,


bem abrigado do relento.


por Tatiares

lundi 25 octobre 2010

Le bois en bois



Na madeira, linhas, estalos e repetições
barbantes amadeirados ainda trazem o cheiro da floresta…

Dégradés ondulados, furos e borrões
antes, árvores! Antes árvore do que superfície.

Desenhos úmidos, nuances e imperfeições.
Do nylon bantendo na madeira, ondulações…

(…)

Le bois, les bois…
Les bois au bois…
(…)

En bois…
Fibras a estirar seus padrões,
Um interno todo em perfeições.

Seiva, xilema, trajeto em poema…
de uma pele com exaltados arranhões.

Por Tatiares

mardi 12 octobre 2010

Pastis redundância anis

Flor de lis
em cada canto
licor de anis
pra melhorar o canto.

Le pastis
um encanto
do pais
onde planto.

Flor de anis
prum novo encanto
licor de Pastis
pra tudo que é canto.

Le lis
no meu canto, planto
mais de um pais.
Eu canto.

por Tatiares

lundi 4 octobre 2010

Primeiros contatos poéticos d'un coup d'oeil du velho mundo

Hoje faz uma semana que enfim cheguei ao meu tão esperado novo lugar,
me sinto daqui sendo dai e não pertencendo a lugar algum.


Em meio às montanhas vejo meus diminutos pesares e meus grandiosos aspirares,
neblinas altas a cobrir os vales, a dançar ao redor dos topos todos glaçados em neves.

Às vezes, quando caminho ao lado, penso que Anteu vai se levar...
porque sua força é sentida, grandiosa.


Em meio ao terreno todo plano que a cidade propõe,
ando e ando, como não fazia há algum tempo...
assim, o tempo na minha cabeça é diferente,
vejo mais e dá tempo pra rodopiar na mente.


Ativo meu lado lírico-eletro-poético-químico
no dia de cada dia,
e na noite de cada dia
escolho sem rotina!


por Tatiares

dimanche 12 septembre 2010

num dia quente... e nem era verão





E pensei... 


(...)


Isso é uma demonstração de amor.


Gelatina colorida num dia de calor,
tinys colour cubes comestíveis gelados,
um gosto de leveza como na infância,
brincadeira e festa que só pede pijama...
no máximo pantufas orelhudas!


A hot sun shine everyday,
cheio de arbustos verdes 
a resistir com suas cores
a secura do ar 
da sertanejo-cyber-city-land.


Um creme rosa
sabor tutti frutti
e a confiança 
no próximo do futuro...
igual criança sente
em domingos matinais.


por Tatiares

samedi 28 août 2010

Nos ares do sertão da farinha podre

Clima de um tempo com ar de parado
nem ensolarado nem chuvoso
sombras bem concretas a poupar o fôlego.


Movimentos repetitivos sem muito avanço, 
mais manutenção do viver que o viver propriamente dito.


Inspiração? tá sempre aí, ali... tá faltando é vontade.
Mas, se tá difícil até de respirar, imagina inspirar de verdade?


por Tatiares

vendredi 27 août 2010

Le chat noir

Ilustração de Harry Clarke para o conto 'The Black Cat' de Edgar Allan Poe

'...I had walled the monster up within the tomb!'

lundi 9 août 2010

Vidění

Telhados avermelhados,
paredes e muros cor de barro,
sinos e torres escurecidas,
luzes amareladas ao sons de violinos.
Atravesso a Náměstí Republiky.
Vejo e respiro meu ser em tcheco: být.

(...)

Adentro ao castelo,
escolho um caminho denso,
de escadas estreitas,
degraus irregulares.
E na falta de ar,
me revelo ao alcançar o mais alto da torre.

(...)

Consigo ampliar o meu olhar,
vendo o céu bem mais de perto,
sentindo o espaço ao meu redor,
provocando meus fantasmas,
encarando os gárgulas de frente.
Jamais de baixo.

por Tatiares

mercredi 4 août 2010

Mulher? Moderna?

Virei pra ver o outro lado, o lado de lá,
toda a conexão desconecta e disléxica,
um mundo inteiro a martelar e picotar cabeças.


E tem quem pense que a vida é uma bagunça só!
Só é porque sacodem o balaio todo melado.
Quer porque quer e nem sabe o quê de fato,
pode ser mesmo a superficialidade, coisinhas falsas e carentes
com suas faces pintadas e sujas, sem rugas e cheias de nesgas,
vadias e queridinhas, oh, babies ocas...


Todo um mundinho pequeno
do tamanho da vontade de se entender mulher,
entorno de adornos frívolos,
tudo pela tara de ser La femme fatale,
a se mostrar pra todos, menos pra si.


Amor? Nunca viram. Só escutaram falar.
E acham que a vida é assim mesmo, bandida.


por Tatiares

dimanche 1 août 2010

As farsas das 1001 noites

Suspense em ar denso, fumaça e artilharia,
trombetas anunciando o pegar fogo do sol depois do meio do dia.
Adiante, planícies efeitadas do mais belo verde se imagina,
e o que se vê é o campo de uma batalha vespertina.

Respiração: acelerada, apavorada,
como se um exército inteiro marchasse pelas veias e nervos
acompanhando o reverberar dos violinos triunfantes,
ofegantes e militarescos.

Lágrimas exaltadas das mil e uma noites de Korsakov.
Nada de ternura em sonetos.
Agora, o andantino de Scheherazade é um quasi allegretto,
e que fique claro, quasi é como pseudo — uma falsa alegria.

Palavras outrora esmeraldas, por hora pedra barata,
Nada lapidada.
Já não são mais os contos que se conta,
mas as farsas das incontáveis noites despedaçadas.

por Tatiares

Panorâmica rasa

Um sobrevôo avista o horizonte
e pergunta onde é que isso vai dar.
Num rodopio rasante tem o chão como teto
e o teto, quê teto?
Aquele telhado colorido das casinhas da infância,
com uma árvore que faz companhia à porta,
e tinha o caminho todo florido.
Belo sonho derretido, invertido e partido.
Já não se faz sonhos como antiguamente,
porque ensinaram a não sonhar com o que é difícil!
Mexe muito com a gente, pede mudança e
ainda por cima dá um medo enorme.
Calafrios na vista ao redor do futuro,
perturbações contidas dentro do muro,
explosões ardidas sem rumo.
Se algo aí dentro ressoa, fica aí dentro mesmo,
entope e sana o fluxo!
Faz de conta que é outra coisa e vai,
vai, agora, vai...
Quem sabe tudo se transforma aos olhos dos observadores,
talvez até passe desapercebido e fica tudo indefinido,
apenas indo.

por Tatiares

jeudi 22 juillet 2010

Tendências

Vem de longe e chama gente de tudo quanto é lugar.
Vem sem pressa de ficar,
afoba todo mundo e nem atenção tem pra dar.
Já chega tomando espaço,
num espaço que não é de ninguém e de todo mundo ao mesmo tempo.

Sai na rua sem muito rumo, lugar comum cheio de coisas inúteis e coloridas.
O negócio é fazer barulho e vender bastante, movimentar o local...
pra dar giro, sabe?
Se não tem a encomenda, manda buscar.
E logo, vai rápido, senão o comprador desiste!

Desiste nada, vai comprar outra coisa em outro lugar.
Não importa mesmo, o que todo mundo quer é comentar.
E, pra comentar tem que tá por dentro dos assuntos.
Tem que saber do ti-ti-ti,
do burburinho sobre o frisson de coisa alguma.

É igual a bula na capa da revista:
Dieta que seca, farinha que não dá fome,
Bolo tentação que aumenta o nível de serotonina,
e depois ainda explica como perder 13 kg em 10 dias e
qual o melhor tipo de brinco pra cada formato de face.

Só que esqueceram de propósito as contra-indicações:
diminuição da capacidade cognitiva,
dificuldade em operar máquinas,
confusão psicológica com transtorno emocional,
impossibilidade de decisão e esquizofrenia.

Por Tatiares

lundi 19 juillet 2010

Alguém nunca, sempre ninguém

A culpa não é sua
ela também não é minha
ela é de alguém
e ninguém assume a culpa.

(...)

Mas alguém não.


por Tatiares

lundi 12 juillet 2010

Possibilidades

No passar do trem, outro trem vindo.
Caminhos — trilhos de ferro, madeira e barbante pensativo,
meditava a vida figurando a paisagem.

Campos e imagens nas telas visuais em comum,
em comum havia os sons interiores e esses não existiam expressos,
guardavam segredos junto das fitas coloridas e dos papéis de carta,
ambos em processo de extinção pela modernidade da vida.

Ao passar das estações, mais cheganças e andanças,
cada um no próprio ritmo,
e nenhum no ritmo da dança das nuvens,
espetáculo a céu aberto sempre visível das janelas,
algo comum e quase nunca visto — os fenômenos.

Ao chegar, da viagem ressaltava o cansaço e o tempo perdido,
pessoas apressadas, ocupadas, mimadas no mal sentido.
O que elas almejam? o destino ao desatino,
entupir os canais perceptivos do cérebro de ruídos e comparativos,
e claro, ter o look do momento, igual da fulana da TV.

Mas, e se desligasse a TV?
E se passasse cotonetes nos ouvidos e nas conexões sinápticas?
Se escutasse mais o vento, o silêncio e o que dizem as corujas e os gatos?
E se os astronautas tivessem ido à lua,
o que nos contariam sobre o silêncio e a falta de vento?
E se...?



por Tatiares

mardi 29 juin 2010

Rêve d'une soirée d'hiver

Tinha um fogo vivo, meio apagado
podia ser temporário ou transitório,
mas, queria mesmo era atenção e marasmo.

Passava dias e turnos a louvar a prórpia solitude,
quase não falava, de vez em quando, cozinhava.
Tinha mania de perseguição, ah tinha! não tinha.
Tinha muito pesos nas costas e pouco contato com o delicado.

Muros e diques, pra quê?

Ventos, ares de mudança e vivacidade. O leve... ahh o L e V e !
de uma pena, de uma carícia, de uma alma.
De um navegar flutuante e velejante
no aerado todo azul-piscina-mar
no horizonte, dois perfis em uma jangada
vaga onda ensolarada - época dourada.

Quer caminhar na beira mar?



por Tatiares

mercredi 23 juin 2010

Acorda?


Acorda, levanta e senta, cadeira espreguiça e aguenta.
Vontade passa, sede evapora, fome devora e também passa.
O sol lá fora, a queimar ilusões e gramas,
a irradiar reflexos frustrados de flores em branco e preto.

Frestas metálicas em pois envelhecido não permitem o alcance desejado,
um caminhar que não existe, exceto para as formigas e migalhas.
Um rouxinol equilibrado no fio elétrico, sem canto,
encantoado pela fumaça e pela preguiça.

Já os automóveis, ah! esses nunca têm preguiça de nada,
andam e batem pernas sem nem saber pra onde,
apenas vão!
São a forma de vida predominante por aqui.

Num sonho vivo, nada de carros nem de preguiça.
Andanças, danças e coisas do gênero enfeitam a paisagem.
É o movimento encaixado ao som de tudo aquilo que não se define,
e que se sabe, se gosta, se delicia, se morde, se come e se goza.


por Tatiares

dimanche 20 juin 2010

L'eau


L’eau de la mer,
l’eau d’un rivier,
l’eau de la pluie,
l’eau-de-vie pour une longue vie,
l’eau de moi même.

Le bruit de l’eau,
une chute d’eau et sa transparence,

les gouttes et les bulles d'eau.
La source liquide de la vie ―
l’eau douce au-dehors et dedans de l’être !

De l’eau pour les poissons,
de l’eau pour les fleurs,
de l’eau pour les arbres ...
Une douce vie pour lesquels qui sentent l’eau autour de ses corps
et qui font vibrer la force de la vie ― la puissance vitale.


por Tatiares

mardi 1 juin 2010

seres sem sentires



Na caçamba, amontoados de terra e blocos deformados de concreto.
Era uma vez a enorme e sombrosa árvore da esquina do pôr do sol,
falta de afeto em meio à sujeira da calçada —
nova vista da varanda!

Agora já não se tem mais as folhas enfeitando o caminho matinal,
foram poupadas inclusive de cair, secas.
O livre do ser árvore agora é destinado aos fios elétricos,
estes sim, atravessam o ar e a terra sem lenço nem pièce d’identité,
e consigo trazem o viver virtualmente livre.
C’est dégolasse como se sente um contentamento descontente, totalment dégouté.
Uns crêem que agora avistam mais longe
já que a frondosa toda enfeitada de verde não está mais au coin.
Mais comme ils sont cons, os seres habitantes dessa terra!
Ignorai-lhes, árvore! Eles não sabem o que sentir.


por Tatiares

lundi 24 mai 2010

quasi-equilibrium


a insônia é algo mais prazeroso no inverno de cada um
uma calmaria externa a respeitar a preguiça e o zelo ao ócio
se toma mais cafés, café au lait, du thé au jasmin e de cidreira
na derradeira caminhada noturna dos pensamentos
insaciáveis contornos a firular o sono e os sonhos
e se tem café, pede acompanhamento!
acompanha?

é nessas horas que acredito no silêncio
tanto quanto no vazio que possibilita a existência
o infinito todo vazio de qualquer ente ou objeto
o elementar do elemental...
eu, você, o universo, o átomo ou a anti-matéria
o silêncio da avenida na madrugada vazia
a primeira cosia que existiu.

um carretel existencial a criar e fiar teias
conexões múltiplas, anos-luz a trafegar entre astros
trajetórias sensoriais à flor da pele
são como resoluções de singularidades e inflexões
vastidão em quarks reluzentes
um espreguiçar lerdo e confiante; quasi-compreensivo:
o caos regente se curva frente ao equilíbrio.


por Tatiares

mercredi 21 avril 2010

Propulsar


Pulso meu palpitar ardente
cresço dentro de mim
a projetar meus anseios sentidos,

como uma onda de pressão a deslocar
radial e radicalmente tudo o que é resistência,
inflexível ou de difícil traquejo.

Quero o não-cristalino exposto
a materializar as pluraridades e seus vertedouros,
desfazer os nós das enervações e deixar jorrar:

o quê de mim transborda,
o quê do mundo desaba,
o quê o infinito pró-pulsa.


por Tatiares

vendredi 9 avril 2010

nos conglomerados dos sertões


morte e vida peregrina
noite que desatina
a falar, sua sina
cabeças decapitadas: alucina!

Indivíduo, filho da esquizofrenia
aquele que só ia
preso em sua arritmia
mais falava, menos fazia.

ilusório dia em maresia
ladainha severina!
de tão pouca poesia
vive a morte como rotina.

por Tatiares

mercredi 3 mars 2010

Ode ao vinho regado à amizade

Hoje faço uma homenagem aos bons amigos, vinhos e conversas... ao viver dos pequenos e belos prazeres.

Neste ano ganhei, de presente de aniversário, de uma grande amiga e companheira no degustar do vinho e de bons momentos da vida, essa poesia de Fernando Pessoa que aqui compartilho para deleite dos apreciadores dos melhores sabores do viver!



Não só vinho, mas nele o olvido, deito
Na taça: serei ledo, porque a dita
É ignara. Quem, lembrando
Ou prevendo, sorrira?
Dos brutos, não a vida, senão a alma,
Consigamos, pensando; recolhidos
No impalpável destino
Que não ’spera nem lembra.
Com mão mortal elevo à mortal boca
Em frágil taça o passageiro vinho,
Baços os olhos feitos
Para deixar de ver.

Não só vinho - Fernando Pessoa

mercredi 3 février 2010

Gélido sentir


Silencioso

céu claro

a roçar

a pele, frio

na nuca, arrepio!

denso - piso em neve.

por Tatiares

dimanche 10 janvier 2010

A dança da psiquê - Augusto dos Anjos

A dança dos encéfalos acesos
Começa. A carne é fogo. A alma arde. A espaços
As cabeças, as mãos, os pés e os braços
Tombam, cedendo à ação de ignotos pesos!

E então que a vaga dos instintos presos
- Mãe de esterilidades e cansaços -
Atira os pensamentos mais devassos
Contra os ossos cranianos indefesos
Subitamente a cerebral coréia
Pára. O cosmos sintético da Idéia
Surge. Emoções extraordinárias sinto...

Arranco do meu crânio as nebulosas
E acho um feixe de forças prodigiosas
Sustentando dois monstros: a alma e o instinto!

Vítima do Dualismo - Augusto dos Anjos

Se miserável dentre os miseráveis
Carrego em minhas células sombrias
Antagonismos irreconciliáveis
E as mais opostas idiossincrasias!

Muito mais cedo do que o imagináveis
Eis-vos, minha alma, enfim, dada às bravias
Cóleras dos dualismos implacáveis
E à gula negra das antinomias!

Psique biforme, o Céu e o Inferno absorvo...
Criação a um tempo escura e cor-de-rosa,
Feita dos mais variáveis elementos,

Ceva-se em minha carne, como um corvo,
A simultaneidade ultra-monstruosa
De todos os contrastes famulentos!