mercredi 17 novembre 2010

Se ter com o fogo

Fazia frio, mas era mais um frio por dentro que assolava um pensamento numa manhã cinzenta, inclusive por opção. Além da noite, de uma noite vazia, se via como quem não sabe de fato se o fato era realmente importante, só tinha certeza do que, de pensar, tanto sentia. Questões, se punha questões… e se impunha de responder rápido, assim era mais fiel ao ímpeto, ao caso. Inúmeras reflexões em loop, meras querências caprichosas, querer demais dá nisso. Dá ânsia, nos dois sentidos. Naquela noite acordara mais de uma vez, com suor na nuca, porque tinha ânsia também nos sonhos, que de metafísicos não têm nada. Sonhos de um cauchemar dentro d’outro, como imagens em calendoscópios nada coloridos, tudo distorcido, torto e comprimido. De um desconforto crônico, esvaía a mágoa. Há quem acredite que se dissipa o desconforto com o deixar passar de um tempo. Quem sabe ? Pode até ser que se cure outros males assim, nesse indo inerente à vida, e que a gente insiste em pensar sobre. Teimosia é coisa séria, causa nó no umbigo igual o medo. Pontos de inflexão à beira de… outra coisa, nada parecida. Havia uma aflição sobre a visão do futuro com sensação de uma corda puída toda bamba. Se encontrava em situações meta-estáveis demais e, duvidava que a instabilidade se dê só no imaginário, não ! Ela existe nos diminutos espaços entre os dedos de qualquer mão; e quando alguém acha que tem algum poder nas mãos, já não tem mais é nada. Das mãos às vezes juntas, se faz uma oferta, como quem semeia o chão de uma terra árida. Queria-se como quem não quer a nada e a tudo, bem misturado e tudo junto. Isso é bem latino, não ? ‘E temperamento latino é fogo’ e, se se falta o fogo a casa cai ! É necessário se ter com o fogo ao menos uma vez por dia pra não sentir nenhum tipo de frio nem deixar a vida mesquinha.

Por Tatiares

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